condenado à vida

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Pensou: Se os sons nos diálogos se sucedessem como números, cada um proferindo um, o número sucinto, ordenado, de ordem generosa a conceder o próximo, de ordem cuja lógica seria a própria conquista de gerir o espaço do outro, por sua vez gerida pela lógica do anterior, de ordem jamais maquinada, máscara que a formata fria, eu digo vinte você vinte e um ela dissera dezenove mas jamais monotonia, pois haveria o calor de cada emissão, a radiação da clareza, a pronúncia numérica como sua caligrafia a nanquim num papel, a compreensão tão lúcida da quantidade que passa a ser qualitativamente sentida, consequência, atraçãodecorrência de um carrossel cuja catraca principal poderia se chamar o âmago de um relógio sem outras catracas sem conceitos de força ou delicadeza apenas a catraca, impulsionada pelo nascimento, pela manutenção inerte, energética de seu moto, modo natural de existir; com o tempo, os maiores silêncios para ouvir os números longos, a vez de alguém a proferir um de mil dígitos inteiros, outro de nós com a sua nona potência por extenso, o meu amigo próximo saboreando o dele, sonhando-o, seu tentador encadeamento antes da hora chegada; e ouvi-los com vivência por mais maiores que sejam, e compreendê-los imprescindíveis e insubstituíveis e mínimos, e na imensidão de seus valores ter a nunca desatenção – exatamente por ser a base de sustentação, em que a conversa não mantém-se nem respira nem luta para não ser extinta: em que a conversa conversa; até chegar a tanto, até chegar ao tão longo, até chegar ...que o número se vê em um outro número, que o um chega a um um de novo ou o um chega a um novo um, como talvez a ideia das paralelas que no infinito se cruzam; e manteria-se a quase autossuficiente linha, saída do escuro, novelo, de nós de medos de ocos, não de um buraco negro pois sem movimento, o parado concentrado de um não-ponto. Por isso havia dito – 1 – e repete consigo, um, um, deixando uma deixa, jogando a isca, procurando um gancho, por mais que pressinta por trás e através de si mesmo a sombra ZERO, e continuará dizendo um, um, um, um...
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27dezembro99
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