condenado à vida

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Primeiro tem-se em mente que o corpo é diminuído, digamos a um palmo de tamanho. Só então somos postos na esfera a vácuo. A vácuo para dizer da sucção intransponível que une suas metades, suas metades de aço impenetrável por qualquer ímpeto de cupim hiperimaginado; a vácuo mas respira-se, sua superfície interna retém um micromusgo que exala oxigênio contínuo e absorve nosso gás carbônico; a vácuo por ser absoluto. Somos postos nele – então lança-se a esfera ao acaso. Sem hematomas, sem transtornos, é científico: há um ponto neutro em que gravitamos, o mesmo ponto que neutraliza os anseios de fome e sede, portanto também os de regurgitamento, os movimentos de urina ou fezes, cíclicos. Somos um órgão uno em estado intermediário, porém nunca apático: vivo. E assim lançados. E assim... onde? Mantidos. Por muito tempo. A bola pode ir ao oceano, pode subir precipícios, pode descer cem mil metros a cem mil quilômetros horários – não sabemos, dentro não se ouve, dentro não se sente, dentro. Não é à toa que desse mundo cego, longo, o indivíduo de nós mesmos, esférico e revertendo o tempo do raciocínio, consiga redigir uma mensagem à base de pena de tinta de papiro feitos do musgo das unhas do próprio punho, mensagem dessas que se arrolha em naufrágio e a garrafa se desata do pânico, à busca de um porto, de um rebatimento, das ondas voltando ainda que no caso se saiba: se trata de uma ilha por dentro, de aço, indevassável e insosso, sem horizonte visível.
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3outubro99
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