condenado à vida

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Você não acredita mas é verdade, no papel com que você se depara, casualmente quando ninguém lhe assistia, casualmente quando o porteiro acabara de lhe informar não estavam, casualmente quando enfim admitira que a viagem era só de ida, estava escrito: “O nativo desejando que o núcleo do vulcão receba sua oferenda. O pássaro quase decifrando o sabor de ferro dos aros que o rodeiam. A moça desolada com a cabeça apoiada na parada do ônibus. (Voo, metal, pico, ígneo, transporte, coletivo, sim, eu compreendo, baralho chato de sentidos.) Quem haverá de dizer que não a colherá? Quem haverá de dizer que não o decifrará? Quem haverá de dizer que não o espera chegar?” Lê-se isto, você ri mas está certo. Ninguém testemunha, ou ninguém lhe assiste testemunhar – e você não guarda o papel como prova, pois afinal lhe provoca risos. Mas admite-o quando casualmente – inexoravelmente – prossegue sozinho, dobrando-o por dentro e (leve) levando-o, como um travesseiro ou apoio de concreto, íntimo.
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3outubro99
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