condenado à vida

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Era incontida a evidência das regras, havia tentado de tudo, subornos, desmanchara-se em lamentos, gestos bruscos, rumos inesperados como se no susto os percursos se ajeitassem. Cabeçadas, sorteios, químicas do aleatório, exercícios até o rompimento dos nervos; nada. As regras agora se aclaravam em suas cores diáfanas, o que era um pouco como contar com o desfocado, construir um barco para singrar no ar atmosférico, deduzir “o medo é um ser abstrato – que a gente pega, apalpa, sopesa e evita”. Seus objetos mantinham-se seus, ao alcance dos dedos: os dois pares de calçado, as ferramentas sem ponta, a gazua com bainha específica para portas de um certo tipo, o molho de ilhoses, as correias deles e a cadeira de assento antigo, reforçado a nenúfar seco que lhe inspirava um controle, um respaldo para se fazer seguro. Os mesmos requisitos mas não eram os mesmos: haveria a medida das regras, a referência do diáfano, o que lhe daria liga para saber onde colocar os objetos, e quando. Receber a evidência era sorrir por senti-la adejando por perto, imprecisa mas viva, o seu corpo sólido, disposto a manter seu foco, não mais através do catálogo, dos compêndios de compra e venda, da lista telealusiva – desferiu pela última vez o talho na mão já cindida: de então adiante, assim sendo, assim seja, comunicaria-se com as setas, consumiria-se com elas, através da delicadeza incisiva do seu sistema de ordens.
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31março99
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