condenado à vida

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Avistava-se, como de costume, o elevado à loja do doutor rabino, a praça com as três árvores despencadas formando um gigante asterisco, a faixa de pano branco e letras azuis onde se lê DEUS É FIEL suspensa no muro de dentro da casa do desconhecido, a sequência dos três postos um de gasolina outro de álcool outro de diesel, a fachada nem um pouco sutil do empalhador de cadeiras e taxidermista omisso, e a farmácia em sua reforma de sempre; mas naquele dia o caminho da repartição parecia carregar a gota-d'água de uma impaciência. Claro que sentia: aquela frase não fazia sentido, as árvores queriam ser resgatadas, aquelas localidades o incomodavam, ora menos, ora mais, ora subjacentemente como o traçado decorado, ora deixando-se pra lá, como a ida ao trabalho, e a luz do sol da manhã, em paz, se imputava. 7, 6, 5, 4, agora era um mecanismo bomba-relógio, um tempo de pólvora acionado no seu encalço, dentro do seu peito, no seu peito sem ioga – por que não respirara como lhe indicaram fortalecendo a calma? 3, 2, 1. A que ponto explodiríamos, é o que perguntava uma mosca lhe zunindo os pensamentos. 0, 0, 0! Já era zero... algum dia, esse gesto azedo, as placas tronchas, vou dar um jeito no meu terno, deus é sempre puído, as borras do cigarro desviam o trajeto do óleo escoando, por que a mulher do bloco de baixo está sempre varrendo as folhas quando eu passo, por que o olho do gato é de vidro, por que o cachorro não late e foge quando eu não me anuncio. Voltou todo o caminho. Tará tari tatá: encarou a ferrugem do portão erigido por ele mesmo, encarou a reta do percurso transcorrido; reencarou a ferrugem, reencarou o caminho; iria traçá-lo renovando, transformado, iria transcorrê-lo de cima ao alto, transferido – ele ser humano novo, ele ser destino. Içou as árvores, fotografou as localidades (para futuras discussões de reformas) e com uma escada magiro, rápido ultrapassou o muro e pôs um crepe branco cobrindo a palavra FIEL da faixa do desconhecido. Prosseguiu satisfeito, quase saltitante, chutando as latas e seguindo, seguindo, no velho costume antigo.
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4fevereiro99
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