condenado à vida

.
9
.
.
Com o rastro seco da brecada ele parou a bicicleta à beira de onde se iniciava a abismal rampa. Que medida se aprofundava? Para simplificar diríamos quilômetros. Mas muito visível, o fundo, apenas dali do início ele avistava. Ao lado, a um nível mais elevado que o dele numa espécie de arquibancada, a plateia, entre a qual os conhecidos, os mais próximos presenciando o programado (incrivelmente, já que passeava de bicicleta e bem poderia não parar ali no momento). A plateia não via o fundo. Não que o ângulo não desse, mas não se focalizava dali – às vezes a um ou outro como mero resquício de miragem – o que nitidamente se revelava a ele. Mas em conjunto sim, conscientes do seu conteúdo – o ponto chave, o último encontro, o grande estrondo que lhe sumiria; para forasteiros conceitos tão macabros, porém aos que sabem, o momento tão tacitamente desejado. Plateia olha em muda aflição respeitosa: ele foca o fundo, ela a fundo não tem certeza se vai, ele olha todos, sorri – para sermos mutuamente compreensivos – e sabe e sabem que vai. Não caberia a cogitação do futuro, não caberia revelar a explosão rude, não caberia antever dores, sensação da passagem, se morte, sangue, atrito prolongado. Iria. Não mais saberíamos. Sabíamos. Todos no fatalismo. A primeira roda inclusa no lábio da íngreme lâmina, giganta, ele, irreversível, efusivo a imputar seu impulso.
.
.
28dezembro98
.
.
.
.

.

Nenhum comentário: