condenado à vida

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Outro deserto. Primeiro as paredes transparentes formando o corredor de 1000 metros, aproximadamente 10 metros de largura e 10 metros de altura; depois o trabalho dos caminhões-plaina, nivelando impecáveis a areia de dentro, desde a largada até a encosta abrupta do rochedo. (A transparência das paredes é para que nós, espectadores, vejamos de longe.) O carro, no início da linha situado com precisão na vastidão do deserto, fumega e está a ponto de bala após as horas de aquecimento e preparativos; as equipes técnicas e de eventual socorro a postos, os OKs trocados pelos transmissores; nós, a plateia, também a postos, imparciais em nossa assistência. Sai o carro. Grau a grau acentua-se a aceleração, acompanhamos a evolução certeira. (Da ressonância dos tapumes sem cor, nos chega à distância o som rouco dos motores.) Mantém-se implacável na linha até que se espatifa ante o escolho. Dizer espatifar-se não é dizer tudo – o carro, é claro, despetala-se, as pranchas de trás sendo as primeiras por algum efeito reflexivo, em seguida as do centro e frente pela força contrária; o dispositivo Não Queima para zerar a inflamação do combustível funciona no preciso momento e o eixo central, após um segundo imóvel, pulveriza-se como o conjunto de pneus. O piloto – quase não resisto ao exagero de relatar o discernimento daqui de seu olhar saltado e ainda na reta direção através do capacete – sobrou incólume sentado no chão do deserto segurando o volante. As equipes, após mais um momento imóvel, olharam-se e saem correndo.
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15setembro98
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