condenado à vida

.
12
.
.
As regras já eram mais do que claras, repassadas, decoradas, impressas no coração. A partir do total se pôr do sol, ninguém poderia sair das duas casas, a não ser os dois, um de cada, para a competição fatal. A área intencionalmente não fora mapeada por ninguém de nenhum dos grupos, mas dizia-se haver um rio – pequeno –, monturos isolados de mata cerrada, vastos prados, árvores altas, às vezes enfileiradas ou unidas em conjunto, e bichos, alguns, na maior parte temerosos, os temerários só se agredidos. Nenhuma preocupação de intrusos ou interrupções do externo: a eles a área garantida ocupava pelo menos duzentas milhas de diâmetro, e o espaço entre as casas estava no centro – e o espaço entre elas e os limites era tão extenso quanto o de uma à outra. Aproveitando a noite coberta, pintou-se de preto, vestiu-se de preto, até luvas. “Sem armas, sem utensílios a não ser vestimenta”, neste sentido também eram claras as regras. O sol ia declinando, alaranjando por fim as paredes e os tetos através das janelas, uma a uma sendo trancada e passada à viga pelos componentes da casa – os meus amigos da casa, os componentes que precisam, que devem ficar, ele pensava. Foi irresistível: além das estratégias e da parte secreta a ele restrita, conjeturaram-se novos ajustes, as duas lentes infravermelhas, a lâmina modelada à linha do braço, as bombas sonoras de despistamento, pequenas, sem perigos de dano físico; súplicas, conselhos, ponderações de último minuto. Na imposição do momento, com a convicção dos próprios termos, desbaratou as propostas, neutralizou a força bem intencionada mas errada dos argumentos. – Pode ser que ele venha com leis falsas, que venham sapadores na frente, a seu mando, que lhe deem deixas, que uma correnteza de câmeras já esteja plugada nas árvores; pode ser até que ele me leve à direção oposta e eu ataque essa própria casa, ou vá além, embora, e sem querer me perca na fronteira. Tudo isso... não importa. – Devolveu a última bugiganga, negando-a. – Quanto a mim eu sei e vocês sabem que eu quero vencer: mesmo.
.
.
31março99
.
.
.
.

.

Nenhum comentário: