condenado à vida

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Chegou-se a um ponto de precisão que as regras seriam as seguintes: vinte balões, de tamanho médio para pequeno, de cores à escolha do arqueiro, soltos ao mesmo tempo na campina; a cinquenta metros de distância, do alto da torre de cinquenta metros de altura, seriam cinco minutos para acertar todos; carcás de trinta flechas, sem direito a mais nenhuma; proibido apoiar-se na balaustrada. A fibra do arco seria de seda atômica, já estava decidido. As setas de um pau-ferro egípcio cuja plantação reproduzira uma idêntica no próprio terreno; as penas das pontas, de ganso, um ganso tibetano, negro, de cuja espécie finalmente conseguira permissão para confinamento a céu aberto em outro país – a produção de cada haste, artesanalmente, já despendera milhares de dias, milhas de horas, como gostava de referir; e a maior parte fora gasta para as que serviram e serviriam de treinamento, muitas partindo-se, perdendo-se ou simplesmente (sutilmente mas para sempre) se inutilizando com o vento; mas a construção das trinta finalistas se iniciara, sem pressa, sem protela, minuciosa marcenaria, grandiosa atenção. Às vezes troavam longínquos ribombos ou relâmpagos muito próximos rasgavam de supetão – ou o céu de repente se fechava, imóvel, como uma sem graça caixa de chumbo; então se acreditava sob as nuvens que construíam uma pantomima na qual se lia uma frase de gás: ABSURDA SINA? ABSURDA SINA? ABSURDA SINA? Voltando o olhar à estopa ou ao formão de lado por um instante, lembrava-se do horizonte a que pertencia: via-se subindo os degraus, via-se com o arco, suas cerdas aparadas cruzadas sobre o tronco, as fitas da aljava firmes, firmes as setas por dentro. Via-se com a faixa na testa, prevenindo suores do cabelo. Caminhara para isso, ainda caminhava, seguiria caminhando.
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31março99
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