condenado à vida

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À dobra da esquina deparou-se com a visão do recinto, caixote reluzente de metal liso, a única porta um talho de abridor de lata, escuro, profundo, sem gradativos. As pessoas só entravam quando a que estava à frente retornava – pícaras línguas juravam que há as que não voltam, se a pergunta interna for mal ou não for respondida. O caso é que todos iam à fila sorridentes e de lá saíam mais sorridentes ainda. Chegou a crer que naquela vila não encontraria Recintos Questionados. Por que não naquela? Ilusão ascética, inglória crença, a barrela de esperança. Em todas as cidades propagava-se a toque de bolhas a proliferação das caixas; indo ao pouco campo, numa reta, sem nem pensar bem, em acordo calado consigo, esperava encontrar um casario, um pouso aberto, um arruado, que só se passasse apenas por rua, por casa, por povo. O caixote da pergunta negou-lhe o vazio em liberdade: bluft, como se brotado no momento mesmo de avistar o espaço, onde ali, há menos de fios de segundos, não estava. O questionamento daquele era: O QUE É VOCÊ? – diziam más bocas que não era variado, todos os enlatados repetiam a mesma pergunta, o que é você, mas outras ou as mesmas más bocas revidavam, “não, cada qual impõe sua prova própria, tem uma dúvida única, exige com a charada autêntica, ou é de que chocolate mais gosta ou qual a cor das estrelas ou se é berço ou estandarte o símbolo da primazia, são infinitas”. Que importa. Daquela, como das outras de todas as cidades, os supostos habitantes saíam da fenda rindo mais que na entrada, ida e volta, indiscutíveis. Aqueles sabiam suas respostas – eu sou isto, eu sou aquilo; desse jeito, daquele outro –, ele não saberia; não: objetivo. Não morreria metálico, não sairia com a cara divertida pois não tinha a diversão da ida, não se atolaria mais na avenida central – não para que não o vissem e denunciassem, já que esse risco não corria, já que de tão inteirados só se interessavam a ir em frente à fenda. Porque iria caçar outro questionário – nem sequer seria o caso de se pensar, ecoavam velhas falas, mas calavam –, iria à cata de um outro invólucro de interrogatório, em que emolduramento e templo não fossem contraditórios, em que fosse além das rimas se oferecendo, de um riso entrando banalmente em acréscimo saindo, iria até onde seria preciso, no curto campo, amplo, amplo, repetia, enquanto virava de volta o passo e tirava os óculos escuros.
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17julho99
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