condenado à vida

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Quando o homem começa a fazer coisas sem finalidade,
acaba por perecer (pelo menos interiormente)
ou produz coisas condenadas à morte.
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W. Kandinsky, Do espiritual na arte
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Casa do artista. Logo à entrada uma azenha difícil de lenho inteiriço de piranheira – mecanismo disposto para mover a porta. A passagem desemboca no acesso a dez corredores, uns subterrâneos outros superiores, de escadas móveis de bambus e cordas às quais se sobe conforme aparecem regularmente – com regularidade mas não regulares, já que de diferentes tamanhos. Todos convergem para um espaço arredondado, centro-sala mais claro mas cheio de entulhos, dos quais já se teve sinais por qualquer dos dez caminhos. Imensas latas de tinta azulada, as bordas todas manchadas e vazando até o piso, uma estante destroçada apoiada em uma coluna suja como esteio, a impressão que se tem é que com um sopro desaba (a estante, não a coluna). Tocos soltos apresentam buracos, desavisos em que se pode tropeçar ou no mínimo destroncar o tarso, sem falar nas escorregadelas pois a única torneira entorna gota a gota finos córregos nos lugares mais imprevistos – às vezes uma golfada traz a água de roldão. Seguindo o rodapé do canto uma gaiola baixa contém meia dúzia de pássaros; tem-se a impressão de que uma ou outra asa se debate e chega-se a ouvir um canto, mas o olhar mais atento revela que estão empalhados e na quina mais afastada a portinhola aberta e enferrujada por imexida há muito tempo. Sobre o bolor das paredes um dos retratos é de um parente próximo, pintado suavemente mas engordurado, aparece sentado assistindo a algo interessante mas os olhos estão esgaçados, cansados de si mesmos, pesados de sono. O artista não está presente mas sente-se sua presença. Num esconso último, onde ainda uma luz mantém-se, destaca-se uma grande tela em branco, embaixo da qual lê-se o trecho de Kandinsky: “Tela vazia. Na aparência: vazia mesmo, guardando silêncio, indiferente. Quase imbecil. Na realidade: cheia de tensões, com mil vozes baixas, plenas de expectativa. Um tanto assustada, pois que se quer algo dela, ela só pede graça. Pode sustentar tudo, mas não pode suportar tudo. Fortalece o verdadeiro, mas também o falso. Devora sem piedade o rosto do falso. Amplifica a voz do falso até ao urro agudo – impossível de suportar.
.......... Maravilhosa é a tela vazia – mais bela que certos quadros.”
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10novembro98
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