condenado à vida

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Como todos que o antecederam, ele sabia que a chance seria apenas uma, única, uma não em um milhão, uma em um trilhão de trilhões; passada a iniciativa, o fim. Como precisar onde e quando estaria o Feixe das Algas? Qualquer um, desde que a história era história, pôde tentar. Houvera épocas entusiastas em que ondas de otimistas se aventuraram, plateias incentivaram, familiares desesperaram-se e por fim erigiram com orgulho a memória de seus mártires – porque todos sucumbiram. Propaladíssimos foram os dogmas, mas relembro, já que foi há tanto: o indivíduo que se metesse às cobiçadas honras deveria mergulhar no tanque condutor (único com acesso confiável) e emergiria do outro lado no mar paradisíaco; lá deveria raptar – encontrar, caçar, agarrar, como queira – o Feixe fundamental das Algas; conquistaria assim a salvação total de todos. Agarrá-lo em uma só tentativa, sem abrir os olhos; fracassando, o cadáver, como o de tantos, boiaria do lado de cá no pequeno tanque. Lá, do outro lado, não haveria ilha nem margem, nenhum tipo de terra, nem fundo, apenas o mar paradisíaco e o paradisíaco céu, fulminantes à vista. Nada fora ilusão; sabia-se pelo exame dos corpos – os olhos congestionados; a carne transitoriamente registrada, a tempo analisada. (Os caminhões-tumba sempre à espera.) O tanque, sim, fora o único louvável; nos outros voltavam apenas destroços, e com indícios de outros lugares, ou não reapareciam. Agora, com ele a pular, era notório que o prazo final se daria dali a duas semanas – a pulsação regressiva dos dias o indicava; desde a história ser história até a dali as duas últimas semanas, era este o período. Teria o tempo que quisesse, mas sem apoio, o quanto, cego, conseguisse nadar – muitos tentaram recursos, boias e apetrechos, que ficaram todos na ida mesmo, atados à água do tanque, abomináveis abandonos, o que ia só era o corpo nu. Tomou fôlego, mergulhou e conseguiu – ao emergir submergira em seguida e seguindo sua meta esticara a mão como dando um bote e colhera: a sudoeste de sua perna o feixe passava e apenas naquele exato quântico instante adquiriria o alcance e o adquiriu. Reapareceu no tanque de cá, vivo, inacreditavelmente – apesar das esperanças dos espectadores sempre nunca morrerem. As celebrações foram incríveis, em lugares remotos duram até hoje. Ele guardou para si (mesmo porque seria intransferível) o céu paradisíaco que chegara a reter por um milionésimo de segundo através do ousado olhar que se abrira apesar do peso universal da ameaça, sem falar da sensação do mar.
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15setembro98
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