condenado à vida

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Súbito na passagem pelo parque deparou-se com aquela espécie de preleção da segurança: os guardas perfilados em três filas, todas as mãos para trás e pernas estendidas, com o comandante à frente falando instruções. Além de um tanto à distância, passara às costas de todos, e o comandante, com o grupo lhe encobrindo a visão, certamente também não o via. E de repente aquele único carro civil nas cercanias. No chão, quase ao lado, um pedaço de concreto armado isolado logo lhe pareceu uma marreta, uma marreta chamando – se a levasse até o alto e descesse no para-brisa estilhaçando o carro, repetindo o ato até que a guarda reagisse convincente? Após uma terceira ou quarta batida, desvencilhando-se do impasse entre a ordem tartamuda do comandante e o instinto da condição profissional, os guardas sairiam patinando à cata dele, que, jogando de lado a clava descartável, já estaria correndo na direção oposta entre os troncos. Os guardas se espalhando tentavam cobrir o maior campo mas sem perdê-lo de vista; ele corria, corria muito, muito mais que os soldados da repentina guerrilha arrancados de chofre da estabilidade fixa. Trançando os caminhos, sem deixar pistas, conseguia desnortear os tiras que entre safanões e tropeços se atrasavam na confusa ambição burlesca de si mesmos. Uma grossa haste serviu de abrigo e se fosse necessário a usaria de ninho até alta noite, mas nem foi preciso: dia claro sem notícia dos impávidos, descia sorrindo do esconderijo e reatava a corrida até avistar as grades do parque e varar o seu perímetro. Já pisava a seta dos seus dias, sob a qual uma estrada indicava a placa: FUTURO. Ainda teve tempo de sentir alegria ao ver os cata-ventos coloridos do vendedor fincados na terra, girando muito.
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24julho98
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