condenado à vida

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Um deserto, sem quaisquer elevações em qualquer coordenada em que a vista se deita. No centro um gradil alto, 2 por 2, quadrado. Dentro, um cachorro. Aos poucos, a N.E., N.O., S.E. e S.O., levanta-se um espasmo de poeira simétrico e crescente indicando a aproximação de alguma coisa. Quando a visão a delineia, são quatro rolos compressores, idênticos e inexoráveis, avançando a um mesmo ponto – o canil unitário. Passam-se... 100 horas? 4 eras de minutos? E agora os motores roncam muito próximos, nenhum vento desequilibrando a divisão dos roncos. O cachorro quase vê todos simultâneos; vêm ultrapassando a areia já reta. Mas suas metas de esmagar a grade não chegam a realizar-se no fim, a centímetros dos vértices os quatro rolos chocam-se – quina a quina, exatamente – e se impedem de prosseguir. Daí a menos de cinco segundos o centro do deserto é um miolo entre quatro torres de fumaça evoluindo num cone de volutas até não se ver. Os motoristas, decepcionados, descem dos carros e retornam passo a passo pelo marco das vindas. O cachorro, quase de volta ao antigo estado, agora cavuca um redondo túnel – mesmo porque já não se podia ver a paisagem antiga.
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06julho98
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