faro

.
. .
.
Andar no escuro de olhos abertos. Já que as palavras não dizem tudo, é necessário escrever, além de me ser impossível fixar a fala, impor a voz materialmente na página, além de me ser igualmente impossível fazer quadro ou foto ou holograma em todas as dimensões que reproduza a tal coisa, e além de eu ser nulo-incompetente em telepatia e incapaz em cartografia e da máquina-do-tempo ignoto para levar outro alguém ao fato; resta a palavra, esta pessoa, ocupação de espaço que mal diz mas diz, um pouco, um pedaço ao menos, de giz, de grafite grosso, de pena forçada, diz, é preciso acreditar nisso. A primeira impressão básica vem daqueles degraus, um conjunto extenso do qual jamais enxerguei o início, por onde passo e passo a passo caminho, subindo, no rodízio uníssono de um pé incerto e em cada plano outro, e assim como jamais vi o início jamais deixei de ver o teor nítido de cada degrau transcorrido: cor negra, um negro tinto, e automaticamente por instinto os defino como de ardósia ou quartzo ou xisto, mas imediatamente em seguida já fico sabendo que isso aparece pelo som que dos nomes nos minérios vem, não da aparência real que têm, daí diga-se objetivo que são degraus de um mármore preto, escuríssimo, com brilho, e polido, e denso, e conciso – nanquim sólido. Uso um hábito cinza, com capelo e sem cinto, de tecido bem vagabundo; só há isso sobre o corpo, sinto ser um escuro, uma posta de ar onde duas órbitas abrigam olhos que por sua vez são outras duas postas de um ar diferente. O par de paredes da escada é uma dupla de pedras espessas, de cada lado um bloco compacto, com certeza da mesma origem e rocha, e certamente, por mais que isso eu também não veja, as pedras como já disse são espessas (1 metro, mais, talvez), só com uma única janela pequena no alto à minha esquerda tendo a delicada forma de fechadura, para não fechar nem abrir, fechadura sem chave que lhe faça par, sem porta por trás, fechadura dura e eternamente aberta; a coloração da rocha é também cinza, digo também pois é igual à roupa, mas o que nessa há de leve (e é muito leve, quase imperceptivelmente levíssima) naquela há de diametralmente pesadíssima, apesar de que sobre esse peso (e por mais que não o suporte eu o sinto – assim feito o meu corpo escavado que me ocupa por mais que seja vazio) sobre esse peso não existe teto, ou antes, ao subir a visão pela pressão cinzenta, não vejo o fim, assim como para trás dos degraus não vejo o começo. Talvez não devesse enxergar nem esse pouco que enxergo: pois é noite. No entanto por dentro dessa, sai certa luminescência – no breu cai como que uma neve, onde os grãos se acendem, onde os grãos se acendem pelo luar que bate, mas não há lua, e esse não-luar me apresenta uma porta, lugar em que terminam os degraus sem início, onde eu venha talvez a ter verdadeiro início, ou fim. Abro-a. A madeira grossa de 1 metro como as pedras só que talhada e embutida de cubos de outras madeiras e emoldurada a ferro e orquídeas de alumínio imitando seda, cede ao imponderável peso de minha mão impalpável: quase não sou eu quem a abre, a porta se abre a si mesma. No interior (ou tudo, escada, cinzas, xistos, sem-começos, já seria interior, de um castelo, ou a sobra em ruína desse mesmo castelo (não o conheço mas existe, ou não existe mas o conheço), mas afinal tudo, cinzas-xistos-sem-começos, interior de qual estrutura?). No interior, porta aberta, o que tem é uma pequena biblioteca de cem mil livros; circular, circulando-me o caminho de repente parado no seu ainda moto-perpétuo, aparente confusão física harmoniosa, como um corpo dentro de outro andando calmo na direção contrária em que o que o abarca anda. O lustre das lombadas, a incisão das letras, carrossel de páginas de páginas de páginas – há mesmo uma abóboda ou é o que quer minha cabeça de duro pescoço que não se flexiona e apenas deduz o percurso em que cai a luz em farelos? Por outro lado, enxugando ous e apesares e mas, e es e ques e parênteses, poderia dizer: É um quarto em que entro. Meu quarto. O reconhecimento acostumado não evita um novo momento. Minha carne diz, não é seu, somos. Vultoso túnel de sopro varando o compartimento em linha certa, quererão alguns seta reta, mas trata-se de uma suficiente linha certa, extasiando-nos (túnel) com a pompa silenciosa de sê-lo: espaço dentro do movimento. Seria como se houvesse vento, mas o ar não é oxigênio, são, de luz, as pequenas partículas, luz pulmonar polvilhando de si o que existe. Polvilhando de si o que nos existe: corpos no acesso livre, nós quarto, mar de poros, estar aí. Andar no escuro de olhos abertos é tudo. Andar no escuro de olhos abertos é sinônimo. De quê? Sinônimo, um sinônimo absoluto.
.
dez.98
.
.

Um comentário:

bia reinach disse...

Ah, não vale!
Esse estava aqui no meu cantinho...
suimes.......
amo este teu escrito!