lorca

.
.

.
Angústias – não a personagem do Lorca –, angústias me habitam. Me habitam não nas cavernas do meu organismo, porque elas mesmas são as cavernas. Meu temor é que minhas próprias vísceras sejam as cavernas. Entranhas rupestres, organismo de angústias.
.
27/09/93
.
.
Martírio – não a personagem do Lorca – um martírio recrudesce na senzala escondida atrás da testa. Onde o alicate? Quero vê-lo, pesá-lo, senti-lo. Botá-lo no devido lugar, onde os arames farpados não são dentes, onde os dentes são ossos do trabalho, do ofício, mastigo.
.
23/03/98
.
.

Prudência – não a personagem do Lorca – a prudência qualquer e um exército delas, camuflam não sei o que do dia-a-dia. Com sua cara sapeca afirma só querer a linha reta, mas uma linha certa, vai, como bazuca benéfica, e em passarela ou avenida então expõe sua alegria de carnaval. Um mar de paetês no depósito (por onde os detetives passam achando suspeito) e a Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência diz William Blake nos seus Provérbios do Inferno.
.
25/08/98
.
.

Maria – a personagem do Lorca – terá vindo de que paragens, destilando-se de que vidros lisos, de que testemunhos do dia-a-dia, de quantos bomba-sim-bomba-não-bombeamentos nos vasos do poeta, e presentemente onde estaria, onde estás, tu Maria de repente na vaga pelos ares, de repente aqui, atrás da estante, infiltrando nas páginas fechadas teu extrato vaporoso, teu percurso sinuoso, reiteradamente mantendo-se, além da morte, na folha impressa, além do mofo, além de incêndios, para ausências, para o ausente encontrando-a, desfolhá-la, redestilá-lamente, de repente de novo, voltando-se à outra para lindamente despretensiosa exemplificar a vida: ¿No has tenido nunca un pájaro vivo apretado en la mano?
.
25/04/99
.
..
.
.
.
.

Nenhum comentário: