a modo de missiva

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Rua Lopes Chaves, 108, depois 546
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Estou aqui, meu amor. É madrugada, vim a pé lá de casa munido da pequena mala com pé-de-cabra e luvas e até pensei em passar no caminho da sua e chamá-la pra essa tarefa insana, mas claro que eu não deveria te meter nisso e o meu rumo veio tão retilíneo e em passos tão decididos que eu só podia chegar aqui como cheguei: mudo e convicto, sem ser interrompido. Arrombei uma das janelas e desabaladamente (que palavrão pra uma hora dessas!) entrei pela fresta e indo a cada divisão andei em todas elas, em que ele veio andou e habitou, ele e a mãe, ele a mãe a irmã e a tia, e os amigos visitam, e quase posso ver os quadros, e os livros, e a Manuela, e tudo sinto. Foi aqui – e esta casa ainda existe na cidade em que existimos. Estou nem à vela; escrevo isso com a pouca luz que vem das frestas e com a chama do fósforo que com uma mão seguro enquanto com a outra risco. E foi com essa luz que vi o resto. Me sinto despido, nu e espremido nesse canto de chão sob a luz de um lampião que imagino. Não sei de onde vem isso. A nudez e opressão deve ser do frisson (esse galicismo escrito aqui...) e esse lampião tão nítido vai ver viveu aqui e o seu espírito ou ele mesmo transcorrendo num tempo que ressuscito vem e me ilumina a mim. E não era mesmo disso que eu estava atrás ao vir aqui? Futucar o tempo, retocar espaço, levantar as pontes ou então só apalpar as que há, pois afinal a casa não ruiu, não foi ruída, e nela ele-o-tempo, ele-o-mário, como lítio radioativo, ainda lítimo. A polícia já já vem, é claro que deram o alarma. Me sinto congelando nessa missão que se consome. Vou achar um taco, um vão, um canto nesse canto, pra pôr debaixo essas notas esperando por ti. Quando da sua vez elas estarão aqui, e você vai saber onde estão, como eu saberei guardá-las. Da soma de nossas missões, de nossa insanidade mútua, despontam então todas as pontes, de mão única, mas muitas, muitas mãos, todas as nossas. Já ouço as sirenes, ou sereias, como se diria no tempo dele. Seremos duas luizizinhas no céu? Ou já somos? Adeus, amor, muiraquitãestrela.
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sete de março de mil novecentos e noventa e oito
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mamãe,
....... muito obrigada hoje pelo passeio no parque. Às vezes eu fico meio irritada mas você não liga não. É porque você vira e fala que eu sou só uma mocinha, mas você se esquece que eu já tenho sete anos! sou uma moça. É que nem você querendo ter dó por não ser paraquedista lá que nem eles. Você pode. Podia alugar o paraquedas, aprender com o tio Nuágio e podia também comprar a bexiga colorida. Por que não, eu perguntei pra você. Comprava a bexiga pra mim e ninguém se atrevia a pensar que eu amolei ou não amolei aquele menino, mãe. Mãe, é que ele é que virou pra mim e me cutucou de longe, você não viu. Foi bem na hora em que o baleiro ficou juntando as caixas enquanto a guarda lá do fundo apitava, ele virou pra mim me cutucando de longe e disse sem nem consciência que dizia: iremos pra Pasárgada?
....... Mas obrigada, mãe. Você não vê?
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vinte e três de agosto de mil novecentos e noventa e oito
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.monge tibetano,
....... avio meu mensageiro encéfalo sem escalas direto aonde estás, contigo sentando-se na paz do teu eixo. Diga sobre o caminho ao meio, em que as solas dos pés sentem tanto, enquanto o alto levita, ascendendo junto, com elas se irmanando. Conceda-me me separar de fulano (a ideia dele que faço em mim) pelo compromisso insano de agradá-lo e caso o agradasse não sentiria ou sentirá um outro ângulo do agrado imprevisto por mim – do mesmo modo me desatar de sicrano (a ideia dele que faço em mim), quem nunca compreenderá a direção deste barco ou a quem nunca chegará – pelo motor avariado, pelo casco baixo ou pela pouca popa de contramaré. Do mesmo modo de beltrano (eu mesmo ideia em mim), meus altos autopreconceitos – do mesmo modo qualquer outro (ideia de atavio, atravancamento). Monge reflita a ideia do meu envio, radar refratário, és bem-vinda mente luzindo, falando do que atormenta este íntimo não tanto ermo quanto se pensa, como se pensa (e penso) neste mesmo instante ali há um silêncio lá em Marte, e Andrômeda existe, rangendo as engrenagens de... de não sei quê, isto tu me dizes. Monge tibetano com uma roupa leve, monge de um Tibet de neves, brancas como um manto protetor, em que um tigre escala o penhasco à flor da pele, pele de um rumo se aprumando até a ti, a ti com o arbusto de que cuidas e ajudas a florir, Tibet de um sol a pino mas de clima ameno, Tibet que não é assim, pois imagino, tibetano domicílio findo, monge que não existe em si.
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nove de novembro de mil novecentos e noventa e oito
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Recado para um oficial da marinha, amigo desconhecido (fala outra língua), neste momento de serviço no fundo do Pacífico em um submarino: Estar vivo é ter o salvo-conduto, durante o qual saboreia-se o prazer de se quiser exclamar: graças a Deus eu respiro. Tanto faz a crença, se ateu ou não, graças a Deus eu respiro ininterrupto, interrompo só se quero, pulmão te amo, meu amo o ar, globo, azul profundo. É como, caro marinheiro, quando agora mesmo transcrevia o texto do cérebro, me faltou o termo de uma palavra – não vinha exatamente o epíteto, se nublava, mas existia a presença de sua fala, o sentido de sua forma, o seu espírito. Então restava aquele paladar ao céu da boca, um selo de memória – salsugem, como com certeza ainda sobra no lado interno do submarino. Depois, com afinco, surgiu a palavra (como, se de todo, abrissem as comportas?) e a escrevi livre, nadando no rumo certo, bússola no pulso, a carta inteira da lembrança revelada. Qual palavra... não digo. Que é desse gosto mesmo do indefinido, que é feito o sabor supremo do conjunto concedendo o que constato: respiro, graças a Deus, respiro – boa viagem, companheiro.
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nove de setembro de mil novecentos e noventa e nove
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................Timothy olhou para a última coisa que o pai atirou ao fogo. Era um mapa mundi,
que enrugou e distorceu-se ao contato das chamas, com um chiado, esvoaçando como uma borboleta negra, ardente.
Ray Bradbury, As Crônicas Marcianas, outubro de 2026
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De repente se a superfície de que dispomos não é aberta, de amplas circunferências, como se crê que seja, de tabuleiros da natureza que se juntam, com graça, com decoro, com violentos ímpetos de estética – se assim não é: como na rua de Higienópolis (um bairro daqui) em que no fim apareceu uma parede, de tijolos altíssimos e grossos, separando não a cidade em duas partes, mas a cidade acabando, deparada com o nada, interrompida simplesmente; e se depois da campainha apertada quem anunciou-se a quem mora metralha tudo, e assim por diante, casa a casas – sobra um entulho, um maço de cartas com metade queimada ou em cinzas, as tiras de um mapa-múndi crestadas num canto, o jogo de talher amassado, a moldura sem quadro, o baralho desfolhado no escuro, ralo destampado, almofadas sem forro, goteira, go... teira, goteira. Tudo isso (superfície finda, visitas destrutivas e outras coisas incríveis) – ao se ver um dado sozinho, uma pomba decapitada sobre a boca-de-lobo, uma criança abandonada no viaduto, um adulto abandonado no túnel, uma mulher abandonada no campo (ou no túnel, ou no viaduto), ou por exemplo (por exemplo mesmo, porque os exemplos são tantos) o pedregulho lançado à pouca distância da poça de sangue ao lado do monte Hebron – tudo isso, assim à mostra por qualquer uma dessas coisas revistas, tudo isso parece possível. Possível como o agora; possível como o ar que respiramos será que eu não vejo isso; possível como a história da sequoia: um homem, do qual ainda não tive notícia mas com certeza houve, um dia se deparou com uma, entrara no parque da Califórnia e frente a frente estavam, de repente via-a e podia tocá-la, em pessoa; esse homem, nesse momento mesmo e com razão, de emoção está chorando; abaixou a cabeça numa espécie de reza, quase ajoelhou mas as pernas o mantêm vivo, não enxuga as lágrimas pois não é preciso, está chorando. Possível como um mapa-múndi rasgado de propósito – e a lareira à espera (as lareiras sempre esperam?); o som eu não sei se é do fogo, não sei se é da ausência de lenho, se a chaminé com sua boca obesa subindo para o oco de um vazio desiluminado, sopra: pos... sível, pos... sível, pos... como um relógio e ponteiros, como um relógio, e ponteiros.
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(seria uma carta para o mundo?)
trinta de dezembro de dois mil
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Sejamos objetivos. Sois uma única composição; ninguém tem esse tanto de burrice em meio a esse de raposa vivaz, este jeito particular de atravessar a rua, e pisar a poça, e olhar o fio do poste com pipa à contraluz, ninguém nasceu do teu pai, da tua mãe, no dia e horas que são teus mesmo tendo irmãos mas não com estas feições mesmo que os teus gêmeos sejam iguais, ninguém com este histórico que em ti é completamente natural embora saltos quebras de tempo e mais de uma vez este desespero de rir desbragado como um lampião em viagem espacial solto e não obstante aceso, ninguém, ninguém com este trejeito, este sotaque-seu, estes olhos de cor especial mais ou menos cegos quando menos vendo quando de cegueira total substituídos pelo tato e dizer tato não é dizer isso é dizer um exemplo é dizer tatos querendo dizer todos os muitos outros tipos e absorção e reflexo; tal unicidade é uma bênção – existindo – existindo – te.
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dois de agosto de dois mil e um

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“Quando a lagoa secar o jacaré vai piar?” – foi o que mandei ao seu bip, na esperança de que fosse chocante, mó-da-hora, estranho o suficiente, já que a um simples como vai me ligue você não responde quem sabe a isso respondesse; mas a mensagem – seca, ou ao léu como um óliguêitor em voo – se dispersou ou dispersou-se sabe-se lá em qual ralo ou tubo compressor dentro do ar, sabe-se lá em qual desfibramento de células de que tipo de fios sejam. Jacaré, e lagoa, e sua suposta seca e o pio suposto se dissolveram pelas brechas, as brechas da comunicação tecnológica, de redes neurais, de rendas nervais, neurastécnicas. Ou chegou; chegaram-lhe; e você achou naturalíssimo, tão natural que escolheu deixar para mais tarde. Quando a lagoa secar o jacaré vai piar? Beijo, um abraço, assinado eu, assinado: assino-me.
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quinze de agosto de dois mil e um
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