o jacaré

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Não ERA uma vez, mas sim É uma vez – já que a história acontece até hoje.
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É uma vez uma floresta toda azul. Em cima dela tem um céu todo verde. As folhas e raízes dessa floresta são muito bonitas, tudo é de um azul brilhante, não desse tipo de brilho que dói nos olhos. É um azul aveludado e macio, bonito mesmo. Até quem não é chegado a azul tem uma quedinha por essa floresta.
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O céu é de um verde bem suave. As nuvens podiam ser roxas, rosas, amarelas, mas são brancas mesmo. Você que está ouvindo essa história (e eu digo ouvindo, porque mesmo quando lemos a gente se ouve dentro da cabeça) pode achar esquisito um lugar assim – de céu verde e floresta azul –, mas pros seres que vivem lá não é nada estranho. É que nem pra gente, que não acha estranho um lugar com céu azul e floresta verde.
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Nessa floresta, que se chamava Azicômona, vive um jacaré. Ele é, por incrível que pareça, todo verde, igual aos jacarés do nosso mundo, como as nuvens que são brancas como as daqui. Acontece que o... o... bom, o nome desse jacaré é muito difícil de saber, já que ele sempre escolhe um novo de tempos em tempos. Eu vou deixar um espaço sempre que for pra aparecer o nome, assim, você, que está me ouvindo agora, pode pôr escrito sobre as linhas pontilhadas como o jacaré se chama, e assim a gente continua a história.
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Acontece que o .............................. andava muito tristonho pela floresta. Estava cansado porque achava que se arrastava demais. A vida inteira a mesma coisa: .............................. se arrastando pra cá, .............................. se arrastando pra lá. Mesmo com todo aquele couro enorme e a cauda superforte ele não tinha mais ânimo... pra ficar por aí se arrastando pelo lodo, raspando a barrigona nas raízes azuis.
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Até que num belo dia belamente verde, .............................. teve uma ideia: lembrou-se da coruja Piaba! (Esse nome eu sei, porque ela demora muito mais que o jacaré pra mudar o seu.) A bela coruja era conhecida por sua enorme capacidade de voo e .............................. pensou:
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– Se a Piaba for até lá em cima no céu, ela pode pedir pra um dos anjos me dar de presente duas asas! Essa é a minha única chance de sair do chão e ver a floresta do alto!
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Pois bem, depois de vários quilômetros deixando um rastro de tanto se arrastar, .............................. chegou numa parte em que a floresta é mais escura. O azul vira azul-marinho nessa região. Arrastando-se mais dois quilômetros em frente e todo doído por se espichar nas raízes, ele acabou encontrando a árvore da Piaba. Aliás, a árvore dourada da Piaba, e ela fica bem no meio de uma clareira. O tronco, as folhas e os galhos são dourados já há muito tempo e a clareira existe ali também há um tempão, desde que o dourado apareceu, mas isso já é outra história.
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.............................. chegou lentamente e avistou a coruja Piaba num dos galhos mais altos. Ela não tomou susto porque via quase tudo dali e observou o jacaré desde quando ele passou pela parte mais escura.
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Tudo acabou acontecendo muito rápido. .............................. expôs seu pedido, Piaba aceitou, pôs seus óculos escuros e voou em busca do anjo. Dentro em pouco já estava de volta e .............................. perguntou:
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– Mas onde é que está o anjo?
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E a Piaba, com um certo começo de sorriso no bico, disse:
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– Aqui. Ele está aqui.
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– Mas eu não vejo ninguém além de você.
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E a Piaba, com o sorriso pra lá de começado, retrucou:
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– É que o anjo é verde, portanto se confunde com o céu.
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.............................. tomou um susto quando ouviu a voz dizer, aparentemente do nada:
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– Olá, jacaré. É verdade, não se assuste. Se você fizer uma forcinha, vai conseguir distinguir minha silhueta. Todos pensam que os anjos moram lá no alto, por trás das nuvens, mas a verdade é que nós somos da cor do céu e poucos nos percebem mesmo quando passamos bem perto, o que acontece constantemente.
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E apertando os olhos .............................. conseguiu ver sobre sua cabeça o contorno de um ser simpático e forte, com imensas asas quase paradas.
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Mais uma vez as coisas foram rápidas. O anjo ficou surpreso, pois .............................. foi o primeiro jacaré que lhe pediu asas, e ele não teve dúvidas em atender o pedido.
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Depois disso as coisas aconteceram mais rápidas ainda – como diz um ditado do mundo da floresta azul, tudo que é bom dura pouco. .............................. voou feito um doido. Voou por todos os cantos verdes do céu, descobriu a consistência das nuvens e viu lá de cima as marcas dos seus rastros. Mas, daí... num outro belo dia verde... .............................. cansou-se.
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Apesar da ralação nas raízes, da barriga inchada de vez em quando, do lodo nos dentes, aquele jeito de ser era ideal pro jacaré. Ele se sentia, mesmo com todas as dores, mais à vontade. Devolveu as asas pro anjo e continuou arrastando o corpão por aí... comendo lodo e tudo. Muitas vezes feliz.
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Acontece que, vira e mexe, .............................. tem uma recaída, e daí ele quer asas, quer voar e detesta seus rastros. Então ele tem uma grande ideia, lembra-se da Piaba, muda de nome, encontra o anjo e os céus verdes e tudo recomeça... É por isso que as coisas sempre SÃO e nunca FORAM. .
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jul.91
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Um comentário:

óli disse...

lindo, lindo, lindo...
também quero essas asas!