por conta de cabral

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Tive a ilusão de ter tido um ribeirão à margem do qual criava bichos hipopótamos guinus e ovos caipira do galinheiro sem portão. Tenho na multidão de minhas mãos, nadando, cascas claras escuras e claras e gemas em núcleos como sóis condensados – que é o que sempre são. Terei uma casa cuja sala tem um ovo sobre um capitel e O Ovo de Galinha de João Cabral pregado na parede ao lado. Ovoutonos, omeletes de rosa, claras em neve, verão.
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4.abril.99
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UMA RIMA SÓ MÁXIMA
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.............. Há quem possa dizer
.............. que João Cabral é frio
.............. calculista
.............. mas o que ele é
.............. é o ter a sensação sensível
.............. sensibilíssima
.............. da concretude material
.............. do teor
.............. – o teor de uma cadeira,
.............. o teor de uma pluma,
.............. o teor de uma lâmina,
.............. o teor de uma cidade inteira,
.............. o teor de algum teor.
.............. Pelo que dizer
.............. material concretude
.............. é o mesmo que
.............. espiritual
.............. (anímica, substantiva, essência)
.............. por ser tão funda
.............. por ser tão pedra
.............. por ser tão espessa
.............. letra
.............. revirada como a lua
.............. – ao calor –
.............. à sua face inescura
.............. verdadeira.


22.julho.99
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.............. O prosador tenta evitar
.............. a quem o percorre esses trancos
.............. da dicção da frase de pedras:
.............. escreve-a em trilhos, alisando-a,
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.............. até o deslizante decassílabo
.............. discursivo dos chãos de asfalto
.............. que se viaja em quase-sono,
.............. sem a lucidez dos sobressaltos.
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é o que diz João Cabral de Melo Neto em seu Paráfrase de Reverdy, cujo texto parafraseado é “Le poète écrit avec des pierres; / le prosateur coule le ciment dans les formes”. Estarão mesmo certos? serão mesmo isto? Tanto um quanto outro, tanto outro quanto tanto – prosa/poesia, proesia, proesa – não são alfabetos (côncavos e convexos, ambos), de um mesmo jogo de espelhos, reflexos, afundados planos de uma só tipografia, se, na labuta da luta, polidos? Essspelhos – espessos, como gosta João Cabral de Melo Neto.
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7-8.setembro.99
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Morre João Cabral de Melo Neto.
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9.outubro.99
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ANFION INSUFLAS
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Voar, com duas pedras como base, uma em cada pé. Suas densidades o gravitam, no contato com as solas é confortavelmente plano, por baixo são mondrongos, seus relevos arrancados de um astro muito e muito mais maior que seus tamanhos. Arrancados, no entanto oferecidos (só com a permissão deste astro se arrancariam). Qualquer pirueta será permitida; no voo leve com as pedras, seus pesos o sustentam. Mas a princípio o voo é ameno, segue simples entre as névoas, entre os prédios; entre os campos entre as usinas entre os mangues entre os picos mais nevados; entre o vento. Também – afirmativamente – sobre o mar e lagos, às vezes com o luar se espalhando, o branco incontido varando a superfície até certo ponto. Até certo ponto correndo sobre os rios que correm. E Sevilha estampada no peito, e o Rio de Janeiro, e Recife em movimento entre as duas águas em que os cascos da memória se equilibram – bailadoras no charco, caranguejos andaluzes, e o Cristo duro e suave no alto de braços abertos. No peito, um sol de fogo, apesar dos pesares. Em cada pé a pedra como base – pesos de rochedos, peso de papel – e o voo do vento, a pino, onde se diz inerte e, inertes, se diz transbordamos.
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12.outubro.99
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DIÁLOGO COM SEVILHA
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Trago Sevilha tão perto, trago Sevilha tão dentro, que como concebo Sevilha? Será ilusão de cego? ou a luz esquecida, se reinventando? Tenho Sevilha como um presente dado a todo momento. De tanto desembrulhá-lo, quando tão ancho me sinto (em península, em várzea, em alpendre, em recifes, em apartamento, em cadeira em que me reclino), finalmente consigo traduzi-la. Finalmente a ambos: afinal nos traduzimos. Numa língua – quem diria – repentinamente tão palpável, anterior a tu, Sevilha, seres Sevilha, anterior a mim me chamares João Cabral de Melo Neto.
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15.outubro.99
(a JCMN, com o mito drummoniano)
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Rol. Só uma coisa. Única. Eis em que brilha, o chão, seu travesseiro. A gente pode vir andando e se deparar com a dita? E não se perguntar quem trouxe, eu pus-me, meus passos me levam. É o poema de João Cabral de Melo Neto personificado. Quem diria. Numa calçada de bairro, quase na sarjeta, numa poça, entre restos de galhos, próxima ao lixo. Sem cabo. Primeiro a reta fria – brilho prateado – metal com finas ranhuras – algumas milimétricas – muitas microscópicas – depois do outro lado: a curva – a saliência para o gume – quer dizer: a descida – os dentes serrilhados em ondas (pequenas ondas e dentes, a que chegam mil fios paralelos do riscado da descida) – e a ponta – fina – pontuda – dura – e a ferrugem incipiente na base (base não reta com duas ou três secções de curva e uma pequena ponta) da qual talvez se lê que não vai parar mais é nunca, é constante, quicê, quicé, caxirenguengue. Mas brilha. Tem digitais (a essa altura devem ser mesmo minhas). Tem préstimo no todo se se quer usar-se. Lâmina. Largada mas está disponível. Dorme deitada. Aguda. Forte. Sua razão sendo um lixo? Com fome. A potencialidade do corte, sua utilidade em suspenso, parada no caminho. Lâminalâminalâmina – ! – você não precisa exclamar-se, você é a própria exclamação, vossa, fossa em que a gente mergulha ao topá-la para melhor libertar-se. Eis eia, sois o poema de João Cabral de Melo Neto concreto, em pessoa.
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2.abril.01
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Pequena missivinha ao Sr. João Cabral de Melo Neto: senhor, há quanto tempo; hoje, nesta tarde em que o céu é uma chapa bela mas estranhamente bela com uma luz amarela num ar parado e trovões longe e o mês ao meio mês que bem poderia ser um décimo terceiro tamanho o léu da desorientação do seu posicionamento, me pus a nas teclas do computador redigir e copiar e copiar e redigir uns textos – vai daí, que, em meio à palavra tempo, em vez de redigi-la certo digito enganado de mão: “t4mpo”; é que E e 4 ficam perto e o dedo esbarrou. Logo, tão mal logo as retinas filtraram o erro, pensei no senhor, na sua amelódica lógica de ritmos, para mim tão música, para mim tão rica de concertos... os seus tempos; os seus quatros. E a saudade batendo disse do há quanto já não o retinha comigo. Talvez recorra correndo aos seus livros, enquanto houver tempo, enquanto há t4mpo até que essas possibilidades de avisos não se escafedam nos bobos mas fatalíssimos erros.
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11.março.02
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