rezas preces afins

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Rezo no Ibirapuera. É mais de meia-noite, são quinze para as três e no claro do escuro eu rezo no centro da Paz direcionado ao lago. Rezo para o mundo, petulantemente dirão os cisnes, os cisnes que nem me olham mas é ao mundo que apresso a minha prece. A praça é um marco de nave espacial que queimou o campo. Rezo, e os macacos e os monstros e os maus gnomos em forma de ostracismos às minhas costas aproximam-se (o marco está entre eles e o lago) aproximam-se sorrateiros como a floresta de Macbeth – mas à espreita param, à margem do campo marcado. Não estou no parque, e é dia, não é noite, mas para lá me transporto: assim como aonde andam os olhos correndo sobre o que já escrevo, assim como é igual a Lua vista dos Andes e vista dos vales embora os luares não sejam os mesmos, assim como agora mesmo pode estar chovendo a cântaros no parque. Rezo na chuva. E minha reza seca, simples, sobe pelas gotas.
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7/10/99
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Ouço um sinal do Sinai, é para que eu vá a lá. O roçagar da areia atravessa todos os mares, cobre e recobre e recobre e recobre os continentes e as marés. (Não: sou eu que me espraiando em tudo encontro a areia a se espraiar.) Queres que eu vá, Sinai? O seu sinal é nítido como um beija-flor. O seu sinal é o do feixe dos faróis – é noite no mundo todo e os fachos acompanham a curvatura terrestre se encontrando cedo ou tarde, sem hora. O seu sinal é o do som dos mamíferos de água, é o do pensamento das formigas, é o da pele daquela pessoa que no ônibus de repente para e pensa na vida ao ver o caminho. É de um desses aparelhos elétricos que transmitem intermitente uma onda luminosa em direção a quem eventualmente a recebe – mas não há mais energia elétrica na Terra. Vaga-lume. Vago, se não fosse tanto. Ouço o sinal, é para que eu vá Alá, Oxóssi, Osíris, Ártemis, Jeová, Pachacamac, Buda, Thor, Jesus, Brama, Tupã.
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17/04/00
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Aquela esquina em Mallorca, aquele canto de lugar em que o turista pôs o pé ao passar o pinguelo nas Filipinas, aquela avezinha (tanto grita) quando na ponta do manacá e quando o faz balançar quando salta, aquela voz do bebê na linha telefônica, aquela voz do bebê (distante) na linha do telefone tão próxima, aquela voz do bebê tão próxima na distância do telefone, aquela mosca rara achada no sul da Bulgária, aquele monte Fuji de repente visto de uma ótica tão nova, aquela savana, aquela cordilheira dos Andes, aquela vereda na savana, a renovando aquela vereda nela, aquela parede cheia de pranchas na reforma do centro parisiense, aquela rama que no Havaí vem ao pé da praia, e a onda, e aquela de Ubatuba que refrescou não as canelas mas as suas almas e acima até as outras, aquela gaivota, em Antártida, aquela encenação de rua, em Lisboa, aquela filipeta de compra na Geórgia antiga União Soviética, aquele aroma dos cafés em Ancara, aquele, aqui da cafeteria na esquina, aquele aroma da música Meu Amigo Radamés ao deparar-se naquelas curvas da riviera, aquela escultura em pleno cemitério e não é mórbida, e a vemos com a luz contra, e detectamos os traços lisos, e aquele gesto de mão posta, sensível, e aquela placa que se forma mas de um ímpeto se evola e não existe: MESMO A MORTE PODE NÃO SER MÓRBIDA, aquele escudo no museu de Roma, aquele Van Gogh na sala de janta, do magnata tão pródigo que de tanta mesa farta não levanta a vista e o olha, aquela esfinge sem nariz, de azeviche, longe do Cairo aquela poluição em ondas ocupando a planície do Saara, aquela jaqueta reluzindo do motoqueiro que desapeou e entrou no boteco da estrada, onde isso, em Cingapura, ou também no Deserto dos Cactos que eu não sei onde fica, onde a mulher tropeçando da mesma forma, onde a moça se deitando no jardim verde, onde uma mensagem chega passando pelo ponto estratégico da Sibéria, aquela sopa à espera, aquela medida drástica, aquele canto na Andaluzia jamais escutado em Mallorca, o vento não deixa – e esta ocorrência de redescobrir a cada dia que a cidade é mais vasta, milhas quadradas não quer dizer nada, quer dizer é esta capacidade de tantos quartos, salas, em uma curva, empilhados, o piso de um cômodo diz mais que uma visão de helicóptero. Então até quando não sentir ao vivo, na veia viva, a dimensão real da relação dos espaços? E ter a superfície da Terra devidamente giganta como lhe é própria, ainda que a tecnologia a apequene ou pense apequená-la, e ter na medida da alma (deixe que diga: alma) a noção de uma grandeza mais mais grande, e daí sim se possa dizer: o mundo é pequeno, não porque o seja de fato mas pela abrangência da alma ser mais imensa, imensa não, na medida exata da grandeza da Terra então as duas condizentes, ambas modicamente imensas, ou ambas pequenas de todo já que se vai exclamar com deleite de espanto é pequena a Terra. ...como chegar a isso, talvez com muito esforço, talvez com uma sucessão ligeira e quase infinda de viagens, talvez com bom gosto, de ser calmo a todo custo, talvez com muita fúria interna, e acionar um fuso ou chegar a um circuito sedimentado, útil um ou outro um ou outro por natureza, talvez com uma mera reza. (O Verão com seu bojudo corpo tem bolhas entre os oxigênios, bolsões de ar ressequido, que matracam os átomos rangendo as arcadas uns dos outros; fora o ar de fora que são como mil minipinos e pontiagudos se chocando.) Rezo na seca. E minha reza simples, úmida, sobe pelas bolhas.
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7/12/00
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Outra forma: Filipinas Mallorca Máli, Botsuana Ancara savana, vereda praia Olinda, Sibéria Alaska Veneza; Bariloche Paris Cingapura, Brasil Panamá Curitiba, Belém Marajó Telaviv, Terra Havaí aromas. Não importa aonde se vá, não importa onde se fique, não importa nem mesmo o lugar que se deseja tanto e se sabe ser compatível, se a alma (este estojo, campo que sai do seu centro e se põe a abarcar, sem curvas, com muitas retas, num globo) não estiver em paz consigo mesma – com alguma satisfação de ser –, o que é ser chavônico piegudo e repetente ao dizer sempre o mais de mil vezes redito o que não impede de ser possível e ainda necessário assim mesmo. Até chegar ao ponto de: não importar o lugar a que se vá – porque você está importante (vivo), porque a importância de todos estará explícita.
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8/12/00
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Terra, te rezo, não sinto os teus torrões pois sou sendo-os, quando me ajoelho assim (por sobre e sendo-te) não deveria rir, nem cogitar nas estupefatas bobagens do grupo ignaro, deveria apenas pedir o que desde já te oferto, o meu pedido, Terra, conceda-nos, paz, piso, teu corpo palpável de tantos músculos, reza-nos pois quando rezamos-te – e sabes ser isso sério e não rachas ao eco das risadas da comitiva de imbecis. (Mas eu gargalho: mas por ser sério e pela alegria de me dirigir a ti.)
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3/01/01
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É preciso ser religioso? Eu não sei. É possível eliminar essa palavra? Eu não sei. Quer saber? Rezo por Lhasa, rezo por Jerusalém, rezo por Manhattan ou pela cidade natal sua. Sua de quem, sua de você, sua minha, sua de todos os mortos idos e que estão por vir, sua de todos todos os bebês.
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16/09/01
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Na sinagoga do pensamento a atalaia do firmamento ora luze ora inclina, ora se precipita para cima vendo-se ser igual ir e vir. Na mesquita do pensamento a contingência infalível ora cresta ora musica, ora fabrica estalidos que são estrelas a rir. Na catedral do pensamento a capela do silêncio ora pinga ora se fecha, ora goteiras de um repuxo nas canaletas de giz. Na sinagoga do pensamento, na mesquita do pensamento, na catedral do pensamento... acontece? Ora?
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28/11/01
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É não sei que horas nesta luz amorfa que toma a concha acústica mais ou menos de baixo e a sustenta, a sustentaria se não fosse a sua base sólida. Um papel de bombocado voa co'a brisa, são duzentas ou duzentas mil cadeiras vazias?, as da orquestra também, no palco, mas o vento silva de leve e irregularmente nos instrumentos repousados que não estão. Desafina-os? Seria não obstante a hora dos músicos se prepararem; um acorde, um arpejo; uma cravelha é apertada, uma voluta denota um trinco logo agora para um espanto. Um dos que chegam esbarrou na sua cadeira no auditório, outro para sentir-se mais cômodo fechou sobre o colo o saco de pipoca já fria e murcha. A luz agora é de um vinho tinto no lusco; e ressaibos de âmbar como de uma aurora que estica-se. O concerto será para as coincidências se encontrando nesta suntuosidade doce de arranjo melancólico. Um cachorro acorda pois dormira no fosso; um outro papel é vela na brisa; aquele varredor apronta o último canto dispersando o pó imaginário que só ele nota, julga-o quem vê do fundo. Os fios de um arco numa corda, o último lustro de um sapato; na estante a batuta é tocada. Algum dos presentes talvez sussurre uma reza e, maestro, por favor, sem revira-faltas; a saudade é uma praga revestida do grande aspecto de uma palavra bonita.
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(E agora, é certo, não são exatamente 22 horas e 22 minutos de um dia 22 de 2002; é quase – 23, 24 minutos mais ou menos... andando.)
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22/03/02
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Um comentário:

bia reinach disse...

"com alguma satisfação de ser" - gostei disso.