tecendo a manhã

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................... Um galo sozinho não tece uma manhã:
................... ele precisará sempre de outros galos.
................... De um que apanhe esse grito que ele
................... e o lance a outro; de um outro galo
................... que apanhe o grito que um galo antes
................... e o lance a outro; e de outros galos
................... que com muitos outros galos se cruzem
................... os fios de sol de seus gritos de galo,
................... para que a manhã, desde uma teia tênue,
................... se vá tecendo, entre todos os galos.

...................
................... .............................................. ................ 2.
...................
................... E se encorpando em tela, entre todos,
................... se erguendo tenda, onde entrem todos,
................... se entretendendo para todos, no toldo
................... (a manhã) que plana livre de armação.
................... A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
................... que, tecido, se eleva por si: luz balão.

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...................
João Cabral de Melo Neto
A Educação pela Pedra, 1962-65
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3 comentários:

edu brito disse...

esse deve ser um dos dois poemas mais lindos do mundo... - o segundo é ele mesmo.

bia reinach disse...

ah edu, este poema me acompanha...sempre...é um DOS....
é meu amigo de cabeceira....
é belississíssimo!!!!!!!!!!!!!!!!

bia reinach disse...

sabe que este "condenado à vida" não sai da minha cabeça...estas tres palavras....mas no feminino!