baleia em minas

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........                                 .......           ..... ... na estrada de Minas
........                               .......            ...  ..... eis que capta-se
........                            .......                 ........ pelo olho da máquina
...........                       .......                      ..... uma baleia


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s.e. XXXIV

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.......... Quer queira quer não é mar e estamos a nado.
2010
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mosca

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..        .. Tanta insônia pra nada.
..        .. Como a mosca no vidro.
..        .. Por que não poupar pancada?
.        ... Reconhecer o intransponível vítreo
..        .. ou desviar.
..        .. Mas não.
.        ... Tanta insônia pra nada.
.        ... Tanta pancada cada cada
.....        .............. cada cada cada cada
......        ............. cada cada cada cada
.........        .......... cada cada cada cada
.........        .......... cada cada cada cada
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ode

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............. Segue o teu destino,
............. Rega as tuas plantas,
............. Ama as tuas rosas.
............. O resto é a sombra
............. De árvores alheias.

............. A realidade
............. Sempre é mais ou menos
............. Do que nós queremos.
............. Só nós somos sempre
............. Iguais a nós próprios.

............. Suave é viver só.
............. Grande e nobre é sempre
............. Viver simplesmente.
............. Deixa a dor nas aras
............. Como ex-voto aos deuses.

............. Vê de longe a vida.
............. Nunca a interrogues.
............. Ela nada pode
............. Dizer-te. A resposta
............. Está além dos deuses.

............. Mas serenamente
............. Imita o Olimpo
............. No teu coração.
............. Os deuses são deuses
..............Porque não se pensam.
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Ricardo Reis, 1.07.1916
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olá

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eu e Helio pai, praia do Francês, AL, fev.2011
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linda olinda: ladeira


Quem desce do morro
Não morre no asfalto
Lá vem o Brasil
Descendo a ladeira
Moraes Moreira
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Vando e Helio pai, ladeira em Olinda, rumo aos Quatro Cantos (Recife ao fundo), fev.2011
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Rio Negro, Manaus, Amazonas, Brasil, jan.2011
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sonda

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Silêncio angústia, fio afinado em agudo, agulha do alto espetando o espanto de ser único e tão ligado à multidão ultrajada de ignorância, silêncio não camuflado, bárbaro, a manada de exércitos desbravando as savanas do universo da terra em seu nome, silencioso, o silêncio acha-de-armas rasgando os mármores da história como manteiga à quente lâmina, veementemente em câmera lenta, silêncio representante do povo, burro, político perdido ou nunca adquirindo o sentido íntegro da palavra político, política, arbítrio troncho dos mármores lisos da história, repito, os mármores, a barbárie, o som irrestrito do silêncio em seu alforje, em seu cartucho, silêncio dispare no rumo de tudo o seu corpo denso por ocupar o espaço gerador entre os átomos, rumo-túnel, formigamento humano, onde as placas sempre de erros ortográficos são menores do que se pensa como unhas no esgoto, silêncio bruto, como o som e o sentido rústico da palavra puro, da palavra fosso, da palavra tiro, independentemente de armamento de sangue de chacina que já tem tanto, de tanta indiferença que já é tolo citar-se, silêncio estrondo, silêncio orgânico, silêncio vivo como um ser humano, ainda que composto de um conjunto apático de osso, sim, um único, como o de dentro da palavra nosso, como o do inútil laboro de brincar com termos, como termos de fechar um compromisso, e adiarmos, e adiarmos, silêncio escriturário omitindo seu não à burocracia, silêncio bacia de pilatos cheia, cheia não só de mãos mas de impressões digitais que não saem por mais que se creia, silêncio torneiras, silêncio canos, silêncio tempestades de areia no justo deserto, silêncio céu aberto reiteradamente ignorado, silêncio santo oco, silêncio santos com ou sem razão reverenciados, silêncio corcel negro, dizem do diabo, espumando a prumo fogos secretos em mira com o íntimo dos indivíduos, silêncio pégaso branco contrabalanceando o impulso do seu irmão gêmeo, silêncio Deus e seu d soberano, soberana polêmica dos ateus e dos cegos, e dos olhos encantados que não precisam ser isto ou aquilo, silêncio deus do céu, silêncio raios me partam, silêncio empecilhos, multas de trânsito, desvios e livres acessos, silêncio para o auge da pipoca estourando, silêncio assassino, silêncio amor das mães e pais pelos filhos, frisson das paixões, sexo, namorados, silêncio no estádio, no rádio amador, no trator multiplicando o arado, silêncio raro repercutido, propagado, a zil megatons, silêncio quântico do centro do próton, partindo a partir-se em partes, de todas as guerras – silêncio –, silêncio pranto, silêncio no ódio do olho do inimigo, no choque da amizade amordaçada por um mero mau contato, silêncio pobre, silêncio rico, silêncio ouro dos tolos, silêncio repleto da praça em protesto, silêncio arena y toros, shi, luz dos relâmpagos, trovão troando, futuras enchentes, imberbes netunos, silente, saleta do hospital público cidades do estreito turco sereias do mar morto, silêncio absoluto, silêncio cerúleo da lira do arcanjo, silêncio da fronteira do portal da trompa, da tromba d'água, da pederneira, silêncio centelha no sílex, da primeira fogueira, de pau, a pique, impérios romanos e a grande pira, dos judeus se calando, silêncio eu e o cala-boca que mandas, silêncio súcubo e sono, silêncio indígenas vivos ou mortos, silêncio todos os jogos, de luminares cassinos ou clandestinos de mísera esquina, silêncio sinas e sinos, da falência, da igreja, silêncio cristo, redentor silêncio, cilício, cravo do tempo incompreendido cutucando a dor, silêncio maior, moby dick em seu silencioso tormento, lágrima de ahab silêncio, silêncio mar, silêncio macunaíma se transformando, silêncio léxicos atualizando o sentido de tudo, silêncio a, silêncio z, silêncio oh, silêncio âncora encontrando o fundo, silêncio bulha e pulha e suas proclamações e seu andar convicto como se consistente, silêncio páginas e brancos, silêncio tumbas, silêncio silêncio, de creches e de cataclismos abundantes, silêncio enxada, silêncio minhocossuco, silêncio até os bons humores, silêncio curtido do imo dos gritos faiscantes das correntes que se arrastam, silêncio, sus, perdão às sutilezas, aos aprofundamentos, à beleza do pensamento, à solidão verdadeira, à solidez do argumento, perdão à vocação de esforços ou a qualquer dignificante extremo – mas silêncio silêncio silêncio, e de dentro da sua pedra uma resposta a: para que tudo isso, para que tudo isso, para quê? – rasouradamente, grosso modo, terminante, substantivo e indicativo, para quê, batisférico.
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nov.98
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