máscarargumento

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I
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Andar à rua nunca é andar à rua. Vez é você como num exército de um só soldado, desbrava, marca as polegadas, cartografa a (sua própria) cidade a que nunca havia olhado deste modo; vez é você indo entre gente brava, brava gente, corajosa, sem pena de ir vivendo assim a pulmões escancarados, mas meio zonza; vez é ir de terno; vez é ir de chinelos, quando muito não furados, gastos pelo roça-roça, entre o teimoso e a calçada desnivelada, entre o cansaço e a esperta boca-de-lobo, entre a fumaça dos canos e os olhos amorfos em vapor d'água; vez é ser para fora; vez é ser intro indiscutivelmente; vez é tropeçar num lixo ralar o queixo e gritar filho da puta e se ver assustado ao se ver retrospectivo caindo e xingando ralado; vez é ir adiante e sair se perguntando o que xinguei? a quem me dirigi exatamente?; vez é ir adiante e sair se perguntando; vez é sair adiante e não se perguntar nada, dia branco do cérebro, e as calçadas; vez é: a planície dos asfaltos; os telhados sem calha; as antenas parabólicas intumescidas perigando com a chuva; vez é: a árvore que se acha numa dobra de esquina; o cadáver do rato; as pegadas secas no cimento que não são de uma gazela são de um cachorro possivelmente vira-lata; vez é: semáforos; vez é: amarelo (azul, vermelho); vez é: o mapa de dentro; vez, é como eu agora mesmo neste momento andando: como aquele sujeito na sua suspensão de tempo chego a esta porta e subo e desço a aldrava de grifo, ta, q, ta, q, ta, saberei quem mora do outro lado? Saberei quem mora no lado interno?... ressoa conforme eu bato, e o eco dessa pergunta (o eco da resposta?) é o que vai servir de estofo entre o chão e o meu piso quando eu continuar andando.
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20.dezembro.00
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II
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Andar à rua não como eu ando, como eu a vejo daqui sentado vendo o seu movimento caminho aberto a passar: sem medo, não-trancado, sem o espanto eterno (como o de ver um segmento sabendo-lhe longo ou curto acesso a todos-todos), com rancor. Rancor de quê? Um rancor seco, sucinto, minucioso de franco, só com o tempero do seu próprio ser, ran-cor, ran-cor, quilate %, a porcentagem 100. De sentir sair do gesso o gosto incolor que se apega à pele; de se evadir um floco solto e no calor festivo a cair, desgarrada neve; de servir um coquetel fervente, e é verão, verão fora, verão dentro, verão de forma inconteste, geral; de ter que descer do alazão e amainar burro brabo que no fervor se atolou e se atola mais pensando ter razão; de ser sobre o cavalo e reparar no cabresto não lá mas aqui, na fuça humana non sense; de, a todos modos, sentir na vibração – da pele sob peles dos pelos das peristalses do progresso ímpar pulmonar – o “sono rancoroso dos minérios”, que atinge, que visita, que invade por já só ser, jazer imanescente, jazz, jazídico. Isso porque é um dia e tanto, isso porque o verão é bom (apesar dos lagos de suor), e agradabilíssimo, isso porque há um aniversário incrível, de casamento, de quatro décadas e meia na palma de dedos juntos do Dr. Tempo, isso porque a esperança é uma sementinha a quem se dá muito carinho embora não haja terra muita vez (embora não exista terra onde ceie), isso porque o mundo é dos trinques, é onde o possível tem nome, o possivelmente (é o que estava escrito na tábua de dentro do banheiro abandonado da estrada sem complemento), isso porque esta máscara quando a digo no rosto e de gosto branca e apegada à cara a verter lento esse quase amargo a sair do seu corpo que tanto sinto, é um devaneio um mimo de estilo um mote tolo e imaginário, é claro.
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21.fevereiro.01
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