para amadurecer, em direção à origem

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alguns aspectos de Tropismes
de Nathalie Sarraute
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originalmente para "Roman Français II",
disciplina da profa. Verónica Galíndez-Jorge,
curso de Letras, USP, segundo semestre 2010
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. ponto de partida baudelairiano
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C'était une femme grande, majestueuse, et si noble dans tout son air, que je n'ai pas souvenir d'avoir vu sa pareille dans les collections des aristocratiques beautés du passé. Un parfum de hautaine vertu émanait de toute sa personne. Son visage, triste et amaigri, était en parfaite accordance avec le grand deuil dont elle était revêtue. Elle aussi, comme la plèbe à laquelle elle s'était mêlée et qu'elle ne voyait pas, elle regardait le monde lumineux avec un œil profond, et elle écoutait en hochant doucement la tête.
....... Singulière vision! « A coup sûr, me dis-je, cette pauvreté-là, si pauvreté il y a, ne doit pas admettre l'économie sordide; un si noble visage m'en répond. Pourquoi donc reste-t-elle volontairement dans un milieu où elle fait une tache si éclatante? »
....... Mais en passant curieusement auprès d'elle, je crus en deviner la raison. La grande veuve tenait par la main un enfant comme elle vêtu de noir; si modique que fût le prix d'entrée, ce prix suffisait peut-être pour payer un des besoins du petit être, mieux encore, une superfluité, un jouet. (1)
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1. Era uma mulher alta, majestosa, e tão nobre em todo o seu porte que não lembro ter visto alguma que a igualasse no elenco das aristocráticas beldades do passado. Um perfume de altiva virtude emanava de toda a sua pessoa. Seu rosto, triste e emagrecido, estava em plena concordância com o luto cerrado que a revestia. Também ela, como a plebe à qual se misturava e que não via, fitava o mundo luminoso com um olhar profundo e escutava meneando suavemente a cabeça. / Visão singular! "Seguramente," pensei, "essa pobreza, se pobreza houver, não deve tolerar a economia sórdida; um rosto tão nobre o garante. Por que será que fica voluntariamente num ambiente em que destoa tão visivelmente?" / Mas passando, curioso, perto dela, julguei adivinhar o motivo. A alta viúva segurava pela mão uma criança, vestida de preto como ela; por módico que fosse o preço da entrada, este preço talvez bastasse para pagar uma necessidade da criaturinha, ou melhor ainda, uma superfluidade, um brinquedo. Tradução de Dorothée de Bruchard, Pequenos Poemas em Prosa [O Spleen de Paris], Charles Baudelaire, São Paulo: Hedra, 2009.
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..... Tropismes (2) de Nathalie Sarraute, ainda que romance "pequeno", parece ter características dessa femme grande, a segunda viúva da qual nos fala o narrador de Baudelaire em "Les Veuves", de Le Spleen de Paris. Por entre as linhas do texto de Sarraute é possível achar indicativos de uma espécie de "necessiadade de infância". A viúva de Baudelaire quer aplicar sua vontade e a aplica em proveito da alegria da criança; como essa senhora, si noble dans tout son air, o(s) narrador(es) de Tropismes não quer(em) admettre l'économie sordide. A infância seria uma das aberturas possíveis para romper essa sordidez. E cette pauvetré-là da viúva seria comparável à extensão do texto de Sarraute – embora neste (si pauvreté il y a!) não se trate de economia sórdida, mas de precisão e justa medida de recursos.
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2. Citações a partir de Tropismes, Nathalie Sarraute, Paris: Les Editions de Minuit, 2009.
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. o intransponível
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Se a infância e a presença de crianças apontam a uma abertura compensatória, há obstáculos a esse caminho. No caso do livro de Sarraute, eles podem ser manifestados pela ocorrência de várias "intransponibilidades". As narrativas parecem chocar ou revelar uma espécie de choque, seja mais ou menos evidente. Trata-se de uma ferme contrainte (VIII, p.53). Imposição que impede personagens ou situações a atingir um salto, um movimento novo, o alívio de uma respiração. Dessa maneira, a aparição do léxico ligado ao esforço de liberdade ou à incapacidade de libertação: sans jamais passer sur le plain interdit qui pourrait lui déplaire (IV, p.28); Elle restait là, toujours recroquevillée, sans rien faire (V, p.34); Il n'y avait pas moyen de s'échapper (XV, p.95); l'atmosphère épaisse dans laquelle ils vivaient toujours les entourait ici aussi (XVII, p.104); il se tenait immobile, sans oser respirer (XX, p.116).
..... Essa noção de obstáculo (a économie sordide recusada pela viúva) pode ainda ser expressa por voltas ou oscilações sem saída definida: il sentait filtrer de la cuisine la pensée humble et crasseuse, piétinante, piétinant toujours sur place, toujours sur place, tournant en rond, en rond, comme s'ils avaient le vertige mais ne pouvaient pas s'arrêter (II, p.16); il fallait toujours avancer avec précaution et bien regarder d'abord à droite, puis à gauche, et faire bien attention, très attention, de peur d'un accident, en traversant le passage clouté (VIII, p.53); elles parlaient, parlaient toujours, répétant les mêmes choses, les retournant, puis les retournant encore, d'un côté puis de l'autre, les pétrissant, les pétrissant, roulant sans cesse entre leurs doigts cette matière ingrate et pauvre qu'elles avaient extraite de leur vie (X, p.65) – matéria ingrate et pauvre semelhante à da realidade que envolve a viúva e a impede de atingir a alegria.
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. crianças, infância, o desintransponível
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Desde o começo crianças e infância são visíveis. No primeiro capítulo (quadro, parte, estrofe, canto? (3)) aparecem as criancinhas tranquilas qui leurs donnaient la main, fatigués de regarder, distraits, patiemment, auprès d'eux, attendaient (I, p.12) – e talvez seja a própria infância que espera. No capítulo XVI há uma outra que espera pelos velhos que passeiam sem querer nada da vida, que choisissaient avec beaucoup de précautions un coin e a quem il n'y avait rien de plus, c'était cela, « la vie »; os garotos, ao contrário, circulaient trop vite e há esse, no fim, que espera, posto entre parênteses: (le garçon attendait) (XVI, p.100). No capítulo III (novamente no fim) duas crianças – índice passageiro de um ar renovado ou lembrança bem-vinda? – atravessam o campo visual das personagens que nunca se lembram de seu passado campestre e que ne voyaient jamais se lever dans leurs souvenir un pan de mur inondé de vie (III, pp.22-3). E o que dizer dessa afirmação a revelar uma espécie de primazia existencial, de evolução maior em relação aos adultos?: Ces qui étaient des initiés, les enfants, se précipitaient. Les autres, insouciants et négligents envers ces choses, ignorant leur puissance dans cette maison, répondaient poliment (VI, p.40).
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3. Folha - Existe para a sra. diferença entre a poesia e o romance? / Sarraute - Nenhuma, agora que já não se usa a rima. – “Em busca do movimento interior”, entrevista a Betty Milan, Folha de São Paulo, Caderno Mais!, 28.07.1996.
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..... Da mesma forma, de maneira menos pontual ou não personificada, existe a infância. No capítulo XIX, o personagem que os outros trituraient, le retournaient en tous les sens, tomara gosto por essa devoração depuis l'enfance. Agora, mais obstáculos: os outros o haviam fechado em um mundo où de toutes parts ils l'encerclaient, était sans issue, sob uma lumière aveuglante qui nivelait tout, supprimait les ombres et les aspérités (XIX, p.112); "na" infância talvez não houvesse esse gosto pela devoração, ele se dá depuis, a partir de um momento quando ils o fecham. De maneira comparável, no capítulo XXII, os objetos desconfiam do personagem depuis que tout petit il les avait sollicités; houve alguma transformação. Agora os objetos se recusam à vontade do personagem, a lhe corresponder e ao que ele queria fazer deles: de poétiques souvenirs d'enfance (XXII, p.128). No XXI, havia esse sentimento insustentável por ce regard appuyé sur son dos, depois o medo é mais forte: à mocinha, crescida, os olhares são diversos e suas suposições sucedem com velocidade no período final. E, se o livro começa com a espera das crianças, no fim – última linha e palavra – é um traço de infância que se faz presente enquanto os personagens entrelaçam as mãos: avec leur sourire légèrement infantile (XXIV, p.140).
..... Se a infância remete a estados de espírito mais compensatórios, que apresentam a possibilidade de um desembaraçamento, outros elementos manifestam uma condição mais terna, de alívio e acolhimento, por exemplo o calor (4). Há o gato assis tout droit, les yeux fermés, sur la pierre chaude – e para isso todo um parágrafo (perfeição autossuficiente?) (XVIII, p.107); alguns capítulos adiante o chaud e o vivant encontram-se lado a lado quando o personagem busca algum tipo de vitalidade ao tocar a madeira: pour essayer de trouver autour de lui quelque chose de chaud, de vivant – e a temperatura do irradiamento das coisas: d'où, chauds, pleins, lourds d'une mystérieuse densité, des objets lui jetaient une parcelle – à lui aussi, bien qu'il fût inconnu et étranger – de leur rayonnement (XXII, pp.127 e 129). A infância e esse "à-vontade" buscado parecem se encontrar nas páginas finais por meio da ronde, situação de calor físico e psicológico, com une faiblesse, une moulesse, em que o poétique souvenir pode, enfim, se pôr em movimento: un besoin de se rapprocher d'eux, d'être approuvée par eux, la faisait entrer avec eux dans la ronde. (...) nous voilà donc enfin tous là, convenables, chantant en chœur comme de braves enfants qu'une grande personne invisible surveille (XXIII, p.135) – ainda que o calor da roda possa ter um traço de tristeza úmida: gentiment en se donnant une menotte triste et moite. (5) Mas, a seguir, no último capítulo e no fim mesmo do livro, a roda retorna sob a forma de un rond bien tendu, talvez mais preciso com seu aspecto de claridade e lembrança agradável, em um só parágrafo como para o calor da pedra sob o gato: Ils se souvenaient de tout, ils veillaient jalousement ; se tenant par les mains en un rond bien tendu, ils l'entouraient (XXIV, p.139).
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4. (...) la chaleur, rendant visibles les parfums (...) – diz-nos Baudelaire em outro texto ("Le Fou et la Vénus", Le Spleen de Paris).
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5. Aliás, uma característica forte de todo o romance parece ser essa: a ambivalência possível nos sentidos das narrativas. É possível serem lidas em tom irônico, positivo, negativo... Todo o valor da infância pode ser considerado sob um olhar "amargo" ou "ilusório"; para mim foi mais notável o aspecto "de esperança", que procuro considerar aqui. E penso que essa ambivalência ou possível ambiguidade tem relação com a poesia – a poesia que Sarraute diz não diferenciar do romance. (v. nota2)
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. o desintransponível do olhar
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A outra "compensação", outra forma de combate aos obstáculos e às atmosferas pesadas, seria a acuidade da visão, a necessidade do olhar. Absolutamente todos os capítulos empregam o verbo "ver", expressões ou ações relativas aos "olhos", sobretudo o verbo e o substantivo "olhar" (6) qu'on voyait l'escalier (...) qu'on regardait les façades des maisons (V, p.35); Elle se tenait aux aguets (...) le regard fuyant, honteux (VII, pp.45 et 47);  comme toujours dès qu'il la voyait (IX, p.58); je suis allé regarder moi-même (XII, p.76) etc. – até no fim, quando antes do "sorriso infantil" ils le fixaient de leur regard vide et obstiné (XXIV, p.140). E, justamente, não se trata de um olhar qualquer; várias vezes esse ato da visão se aproxima do esforço em compreender, esclarecer, escrutar, ver de fato, com atenção, obstinação: Ils regardaient attentivement les piles de linge (I, p.11); le regard perdu et comme suivant intérieurement un sentiment subtil et délicat (...) elles ne cessaient de regarder en lui une baguette qu'il maniait (IV, p.27); il traversait en regardant avec une infinie prudence (...) pour bien voir si une auto ne venait pas (VIII, p.51); seuls ses yeaux étaient protubérants (IX, p.57); son regard s'allumait, elle tendait le cou avidement (...) en ouvrant d'un air pur et inspiré ses yeux où elle allumait une « étincelle de divinité » (XI, pp.70-1); Avec son petit œil perçant et malicieux (XII, p.75); furetaeint d'un œil avide et connaisseur (...) Leurs yeux tendus furetaient à da recherche (XIII, pp.81-2); Toujours fixés sur elle, comme fascinés, ils surveillaient (XIV, p.87).
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6. Só o capítulo XIX não possui "verbos de visão"; assim mesmo contém o trecho já citado: Partout leur atroce clarté, leur lumière aveuglante qui nivelait tout, supprimait les ombres et les aspérités. (XIX, p.112)
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..... É a maneira de "fureter", "happer" (XXIV, p.139); é um aprendizado de faire bien attention, attention, attention (VIII, p.52); é a disposição de regarder calmament, bien en face, saisir son regard, ne pas se détourner de son tortillement (IX, p.57); é o impulso de "allumer la lumière" e sentir as mãos tâtonner dans l'obscurité (XX); de regarder ; et juste au beau millieu de la maladie (XXI, p.123) – ou de criticar a falta dessa disposição: Il ne s'arretait jamais au milieu de la rue pour regarder (XXII, p.128). Talvez como condensação exemplar, a ação em direção aos peurs blotties do segundo parágrafo do capítulo XX: Maintenant qu'il était grand, il les faisait encore venir pour regarder partout, chercher en lui, bien voir et prendre entre leurs mains les peurs blotties en lui dans les recoins et les examiner à la lumière. (p.115)
..... Toda essa postura não é apenas dos personagens ou das narrativas; parece pertencer à própria escritura. Os acontecimentos se dão em pequenas situações e atmosferas: seja uma ambientação condenada da qual as pessoas são incapazes de escapar... sejam os pequenos barulhos no silêncio ouvidos da beira de uma cama... seja uma pesquisa por tailleurs, o passeio de um avô ou de um velho na noite de primavera, o momento entre duas mulheres nos arredores de Londres. Essa atenção ao mínimo, ao detalhe, à "pequenez", parece também se relacionar ao que é próprio da infância, de sua "puerilidade", aspecto mais de uma vez abordado, como no capítulo XV: en agitant en l'air ses petits pieds, d'une manière puérile. (p.94)
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. pequenez do pequeno, grandeza da pequenez
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No livro Enfance, de 1983, Sarraute parece ir diretamente à "puerilité" (7). É como se a escrita fosse (se sentisse no direito de ir) para além das "intransponibilidades" e resgatasse os momentos em que a infância não espera nem apenas testemunha, mas (re)vive, (re)respira. Pode-se mesmo reencontrar o calor na recordação da mãe: avec tout contre mon dos la tiédeur de sa jambe sous la longue jupe (p.20). Na Enfance (o livro) as narrativas talvez atinjam com disponibilidade a liberdade do calor negado nos Tropismes – onde há obstáculos entre os corpos e o desejo de tocar, onde marcam presença vitrines e devantures: Ils regardaient longtemps, sans bouger, ils restaient là, offerts, devant les vitrines, ils reportaient toujours à l'intervalle suivant le moment de s'éloigner (I, pp.11-2); quand ils regardaient les devantures des magasins (III, p.22); On les voyait marcher le long des vitrines (XIII, p.81); il regardait à travers une vitre claire (XXII, p.129).
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7. Li apenas as primeiras páginas desse livro, contudo fica a impressão forte de que se trata de uma direção tenaz e franca à memória e aos sentimentos da infância. Enfance, Nathalie Sarraute, Paris: Galllimard, 2009.
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..... As barreiras de Tropismes podem ser lidas como impossibilidades ao contato do que é mais vivo, mais intenso. Faz pensar no livro de Philippe Delerm, La Première Gorgée de Bière, em que os textos – cujo subtítulo é et autres plaisirs minuscules – tratam justamente de momentos em que o detalhe ou o valor das pequenas coisas se revela. Por sua referência direta à infância, assinala-se esse trecho de "On pourrait presque manger dehors": C'est bon la vie au conditionnel, comme autrefois, dans les jeux enfantins : « On aurait dit que tu serais... » Une vie inventée, qui prend à contre-pied les certitudes. A infância é um lugar onde se pode "inventar", onde se pode ter a liberdade de viver au conditionnel; mas, em Tropismes, as devantures o impedem.
..... Retomar a infância – romper as vidraças – seria uma maneira de, sem temor de mécontenter, s'échapper (XV, p.96), escapar para reencontrar a vida ela mesma, para laisser un coin de fraîcheur (XIX, p.111), para o renascimento de algum aspecto si enfantine, si pure, como aquele da pequena Thérèse de Lisieux (XIV, p.88). Voltar ao passado para se reencontrar, partir em direção ao começo para conquistar uma maturidade, ir ao início para amadurecer. E, a esse respeito, curiosa é a semelhança, a quase igualdade entre mûrir et mourir. Se a superação do intransponível seria a reconquista da vida de parte dos personagens, pode-se considerar que eles vivem na morte ou em uma semimorte. Seria preciso, primeiro, perceber – a seguir aceitar a situação estagnada. Aceitar para s'échapper, para se evadir em direção a si mesmo ou ao que é mais vivo. Novamente a mulher alta de Baudelaire: sabe que é viúva, reconhece a morte e talvez por isso mesmo sinta que é capaz de se sacrificar pela alegria do filho, de se reenviar à fraîcheur da infância.
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. o deslizamento do olhar em direção à melancolia
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Afinal, quais são os tropismos de Tropismes, eles se dão em relação a quê? Quais são, nas narrativas, a croissance orientée dans l'espace (...) sous l'influence d'une excitation extérieure, a affinité d'une substance (...) pour un tissu, un organe donné, a force obscure qui pousse un groupe, un phénomène à prendre une certaine orientation? (Le Petit Larousse) Parece que um dos aspectos possíveis está na tensão entre os personagens, sempre explicitado pelo contato (a fricção) entre ils e elle, elle e il, il e ils... Contudo essa force obscure – às vezes estabelecida em meio a maneiras automáticas de vida – pode ser compreendida por uma tendência íntima dos indivíduos a se resgatarem, a reencontrarem alguma ambiência mais leve (por exemplo a da infância) (8).
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8. As relações entre esses personagens nomeados por pronomes pessoais podem mesmo se revelar pelo aspecto gráfico: a verticalidade da letra L nos il, ils, elle, elles... quem sabe põe em jogo a ânsia – espalhada por todo o livro – por uma horizontalidade de repouso, de tranquilidade, de acolhimento (mais uma vez possivelmente representada pelos signos da infância).
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..... Ao acompanhar o caminho dessas tensões ou dessa infância intangível, sobressai a participação de movimentos que glissent, rampent, écoulent, se deslocam au long dos percursos: silencieusement, glissant vers le fond sombre du couloir (III, p.23), maintenant elle se glissait vers Gide (XI, p.70), ils se sentent glisser (XIV, p.88), qui rampait honteusement pour essayer de se glisser entre eux (XXIV, p.140), des après-midi entières s'écoulaient (X, p.64), se collant au mur, de biais, craignant (XXII, p.129), et avancer modestement le long des trottoirs (V, p.36), elles trottaient le long des boutiques (XIII, p.81), ils marchent de côté docilement, longeant le mur (VII, p.47), pendant qu'ils avançaient lentement le long du trottoir, en se tenant par la main (VIII, p.52), la main le long de la colonne (XXII, p.127). A ponto de remeter a bichos ligados particularmente a esses gêneros de ação: Comme un cloporte, elle avait rampé insidieusement (XI, p.69) e parasites assoiffés et sans merci, sangsues fixées sur les articles qui paraissaient, limaces collées partout et répandant leur suc (XI, p.71).
..... Esses deslocamentos têm algo de furtivo, obscuro e insinuante, quase clandestino certas qualidades que se assemelham a essas pequenas vegetações urbanas encontradiças em qualquer calçada, esquina, poça, boca-de-lobo... Pequenas concentrações de ervas, moitas, gramas que rampent, glissent, s'écoulent pelas rachaduras dos espaços pouco ou nada notados. No entanto podem ser entendidas como concentrações de vida, microflorestas resistentes. A infância, por sua vez, não teria essa qualidade de fragilidade e perseverança, vulnerabilidade e potência? No entanto, em Sarraute, ao se insinuar nas linhas de Tropismes, a infância parece querer viver: sem poder inteiramente – e escorre, rasteja, desliza... como as pequenas vegetações numa fissura de sarjeta.
..... A propósito desses elementos – e ainda sobre o "olhar", tão presente nas páginas do livro –, pode-se pensar em duas referências cinematográficas de dois grandes filmes do século XX. Certamente há vários, centenas de filmes cujo tema é a infância, mas Stalker – de Andrei Tarkovsky – e Fanny e Alexandre – de Ingmar Bergman – contêm cenas em que a infância parece transparecer com essa dose de melancolia, de "intransponivelmente" que podemos encontrar por trás dos vidros e entre as tensões de Tropismes. No filme de Bergman, é no início: nos primeiros minutos testemunhamos o ar abandonado do jovem Alexandre brincando com as marionetes de seu pequeno teatro. A cena de Tarkovsky encontra-se no fim: o olhar obscuro da filha do protagonista diante do deslocamento dos copos sobre a mesa – olhar enigmático mas que de certa forma participa a compreensão do mistério.
..... Sobre le masque des choses, sobre o qual les yeux indifférents glissaient (X, p.64), as palavras de Tropismes parecem buscar uma origem perdida, algum crescimento interdito ou sufocado. Contudo sem indiferença: como a viúva baudelairiana, elas olham le monde lumineux avec un œil profond. Os olhos de suas frases detêm a atenção concentrada para échapper en heurtant les parois déchirées et courir (XXI, p.123), contêm e transmitem a concisão em direção ao mínimo que revela.
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Stalker, Andrei Tarkovsky, 1979
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Fanny et Alexandre, Ingmar Bergman, 1982
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Um comentário:

sérgio disse...

Grato pela vista amigo!!!
Charles Baudelaire...uma grande paixão, uma inspiração...
Abs